Equipe médica pediu mais de 5 vezes para que obstetra preso pela morte de grávida e bebê fosse até o hospital, diz diretor
Higo Moreira Fonseca Reprodução/Redes Sociais A equipe médica do Hospital São Francisco, em Três Marias, acionou ao menos cinco vezes o obstetra Higo Moreira Fonseca para que comparecesse à unidade e atendesse a gestante Bárbara Luana Fernandes Aleixo, de 29 anos, segundo o diretor do hospital, Joaquim Pereira de Melo Neto. Apesar dos contatos, a mulher e o bebê morreram às 5h45 de terça-feira (9). Em depoimento à Polícia Civil, o diretor afirmou que a primeira tentativa de contato com o médico ocorreu às 22h08 de segunda-feira (8). Higo Moreira Fonseca estava de plantão em regime de sobreaviso e foi chamado para atender Bárbara, que estava com 30 semanas de gestação. De acordo com o relato, o último contato da equipe com o obstetra foi registrado às 5h25 da manhã do dia seguinte, cerca de 20 minutos antes da confirmação das mortes. 🔍 O plantão de sobreaviso é uma modalidade em que o médico não permanece no hospital durante todo o período, mas deve ficar disponível para ser acionado e comparecer à unidade sempre que houver necessidade de atendimento especializado. Agora no g1 📱Favorite o g1 no Google e acompanhe as principais notícias do dia. Segundo Joaquim, o médico se recusou a atender aos chamados em todas as ocasiões. De acordo com ele, o profissional alegava que o caso era clínico, e não obstétrico. Após a confirmação das mortes da gestante e do bebê, moradores de São Gonçalo do Abaeté, no Noroeste de Minas Gerais, a Polícia Civil foi acionada para investigar o caso. Conforme a investigação, ao chegarem à casa de Higo para cumprir a prisão em flagrante, os policiais encontraram o médico tentando sair do local. Segundo a Polícia Civil, ele teria engatado a marcha à ré do carro na tentativa de deixar a residência. A ação foi interrompida quando uma policial sacou a arma e ordenou que ele parasse, impedindo a fuga ainda no portão. Segundo a Polícia Civil, na quarta-feira (10), o caso passou a ser investigado como suspeita de negligência médica e omissão de socorro contra a gestante. Em depoimento, o obstetra contestou a versão apresentada pela equipe médica do Hospital São Francisco. Ele afirmou que nunca foi informado de que a paciente enfrentava uma emergência obstétrica. O médico também negou ter ignorado chamados ou se recusado a prestar atendimento. Segundo o depoimento, a responsabilidade pela condução do caso seria da equipe de plantão. Higo afirmou ainda que encontrou a gestante sem assistência e que, ao chegar ao hospital, a médica plantonista não soube informar se Bárbara estava viva ou morta. Ao g1, o advogado do obstetra, Higor Magid Lauar de Castro Vieira, afirmou que o médico já foi colocado em liberdade e destacou que a investigação ainda se encontra em fase inicial, razão pela qual a adequada compreensão dos fatos exige cautela e dependerá da análise de todos os elementos que vierem a ser produzidos e considerados pelas autoridades competentes ao longo da apuração. Leia a nota completa abaixo. Segundo a Polícia Civil, a Justiça concedeu liberdade provisória a Higo na quarta-feira (10), mediante o cumprimento de medidas cautelares. O médico foi solto na manhã de quinta-feira (11). O Hospital São Francisco também foi procurado pela reportagem para comentar sobre o ocorrido, mas não houve retorno até a última atualização da matéria. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Triângulo no WhatsApp Investigação reconstruiu ordem cronológica de ligações A Polícia Civil reconstituiu a sequência de tentativas feitas pela equipe médica para acionar o obstetra Higo Moreira Fonseca, enquanto o estado de saúde da gestante Bárbara Luana Fernandes Aleixo se agravava. Segundo os depoimentos reunidos no inquérito, Bárbara apresentava sinais de agravamento do quadro clínico, compatíveis com eclâmpsia em estágio grave. 1ª tentativa (22h08): os primeiros exames alterados Segundo a investigação, ao dar entrada no hospital, Bárbara apresentava pressão arterial de 180 por 80 mmHg. A médica plantonista enviou ao obstetra Higo Moreira Fonseca, por WhatsApp, os resultados dos primeiros exames. De acordo com os relatos reunidos pela Polícia Civil, Higo avaliou que os sintomas poderiam estar relacionados à ansiedade da gestante. Ainda segundo a investigação, ele afirmou que o caso não era de natureza obstétrica e, por isso, não compareceu ao hospital naquele momento. Da 2ª à 5ª tentativa: mensagens e ligações durante a madrugada À medida que o estado de saúde da paciente piorava e novos exames indicavam aumento do risco, a equipe médica fez novas tentativas de contato com o obstetra por mensagens e ligações telefônicas. Segundo os depoimentos colhidos pela Polícia Civil, os profissionais informaram Higo sobre a evolução do quadro clínico e reforçaram a necessidade de sua presença no hospital. Ainda assim, de acordo com os relatos, ele permaneceu em casa. 6ª tentativa (por volta das 5h): pedido de socorro diante do agravamento Segundo o inquérito, Bárbara Luana apresentou uma piora significativa no quadro de saúde e precisou ser transferida para a Sala Vermelha. Diante da situação, a médica plantonista fez uma nova ligação para o obstetra. Em depoimento, a profissional afirmou que tentou explicar a gravidade do caso. No entanto, segundo seu relato, o médico insistiu que o atendimento deveria ser conduzido pela equipe da clínica médica e encerrou a ligação. 7ª tentativa: nova ligação e última recusa Logo após a ligação, a equipe médica fez uma nova tentativa de contato com o obstetra. Desta vez, uma técnica de enfermagem falou diretamente com o médico e também pediu que ele comparecesse ao hospital. Segundo os depoimentos reunidos pela Polícia Civil, o obstetra voltou a afirmar que não iria até a unidade. Ainda de acordo com a investigação, às 5h17, enquanto a equipe tentava reverter o quadro crítico de Bárbara Luana na Sala Vermelha, o médico enviou uma mensagem ao grupo de WhatsApp do corpo clínico do hospital. No texto, escreveu que "as pacientes gestantes com quadros clínicos, incluindo surtos psicóticos, sem queixas obstétricas, deverão ser conduzidas pela clínica médica". LEIA TAMBÉM: Quem é quem no esquema de família investigada por tráfico e lavagem de dinheiro Vizinho estranha portão aberto e luzes acesas, e PM encontra 110 barras de maconha PF cumpre mandados contra suspeitos de traficar 3 toneladas de cocaína Chegada do médico ao hospital Segundo os depoimentos reunidos no inquérito, quando o obstetra Higo Moreira Fonseca chegou ao hospital, por volta das 5h27, Bárbara Luana já estava em parada cardiorrespiratória irreversível. Ainda de acordo com a investigação, o anestesista de plantão defendeu a realização imediata de uma cesariana pós-morte na tentativa de salvar o bebê, que tinha 30 semanas de gestação. Conforme os autos, Higo solicitou que o material cirúrgico fosse preparado, mas decidiu não realizar o procedimento. Segundo o inquérito, o médico determinou que os kits permanecessem fechados por considerar que o tempo sem oxigenação tornava inviável a sobrevivência do bebê sem graves sequelas neurológicas. A Polícia Civil informou que, com base nos depoimentos, documentos e demais elementos reunidos durante a apuração, incluindo a ausência do médico em parte do atendimento, equipes das polícias Civil e Militar localizaram e prenderam o obstetra. Inicialmente, Higo foi preso em flagrante por suspeita de omissão de socorro. Na delegacia, a prisão foi mantida e passou a considerar a suspeita da prática de dois homicídios. Na quarta-feira (10), a Justiça concedeu liberdade provisória ao médico, mediante o cumprimento de medidas cautelares. Ele foi solto na manhã de quinta-feira (11). As investigações seguem em andamento. O que disse a defesa do médico "Manifestamos preocupação com a circulação de informações incompletas, especulações e conclusões antecipadas acerca dos fatos atualmente objeto de investigação. Inicialmente, registramos nosso respeito à memória das pessoas envolvidas e nossa solidariedade aos familiares que enfrentam este momento de profunda dor. É importante destacar que a investigação ainda se encontra em fase inicial, razão pela qual a adequada compreensão dos fatos exige cautela e dependerá da análise de todos os elementos que vierem a ser produzidos e considerados pelas autoridades competentes ao longo da apuração. Também é necessário esclarecer que a atividade médica em regime de sobreaviso constitui modalidade regularmente reconhecida e regulamentada pelo Conselho Federal de Medicina, não se confundindo com plantão presencial permanente nas dependências hospitalares. Trata-se de modelo amplamente utilizado em instituições de saúde públicas e privadas em todo o país. Da mesma forma, é importante registrar que o contexto assistencial objeto da investigação apresenta complexidade superior àquela que vem sendo retratada em parte do debate público, envolvendo circunstâncias e elementos que ainda serão devidamente analisados e esclarecidos no curso da investigação pelas autoridades competentes. A defesa reafirma sua confiança nas instituições responsáveis pela apuração dos fatos e recorda que a Constituição da República assegura a toda pessoa o direito à presunção de inocência, ao contraditório, à ampla defesa e ao devido processo legal." Assista: Erro médico em João Pinheiro vira caso de polícia Erro médico em João Pinheiro vira caso de polícia VÍDEOS: veja tudo sobre o Triângulo, Alto Paranaíba e Noroeste de Minas
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